Thursday, July 28, 2011

Afinal o default pode ser bom para quem tem obrigações?

Segundo Michael Pento, economista sénior na Euro Pacific Capital, a empresa de Peter Schiff, o default pode ser bom para quem detém obrigações.

"... our government will be forced to pay interest on the debt and make cuts elsewhere in the budget. The dramatic reduction in debt supply will force prices higher and yields lower. In addition, capping the total amount of outstanding debt at $14.3 trillion will serve to boost the confidence of our foreign creditors in the notion of long-term U.S. solvency, Also, inflation would be reduced because the Fed would have to print less money in order to monetize U.S. debt--thus making Treasury ownership much more appealing."

O problema da lógica apresentada por Pento é que assume que o governo americano vai reagir ao não aumento do límite da dívida com redução da despesa. Se isso for verdade, a sua lógica está correcta. Mas parece-me que a probabilidade disso acontecer é muito reduzida. Parece-me que o mais provável se o limite da dívida não for aumentado é o governo americano faltar ao pagamento das obrigações.

A ver vamos...

Friday, July 22, 2011

Quem disse que Paul Krugman percebe de economia?

Se não houvesse Paul Krugman, não tinha tanto para escrever neste blog.
Originalmente, o Pacto de Estabilidade e Crescimento previa que os países europeus que quisessem aderir ao Euro poderiam ter no máximo um défice de 3% e dívida de 60% do PIB.
Agora que os países da zona Euro concordaram voltar a ter défices inferiores a 3%, Krugman acha que isso vai fazer com que esses países não tenham crescimento. Alguém explique a este senhor, que já ganhou um Prémio Nobel, que não é bom ter dívidas! Foi graças aos conselhos dele que os EUA saíram do crash das dotcom criando uma bolha no mercado imobiliário. Por sua vez, esta bolha (naturalmente maior que a anterior) rebentou e agora os EUA estão a tentar sair dela contraindo mais dívida, sendo nesta altura o país mais endividado da história! E quer ele que os países europeus com economias saudáveis sigam os seus conselhos, que se resumem a taxas de juro muito baixas, inflação alta, consumo; tudo isto suportado por crédito, muito crédito.
Confesso que este senhor me irrita solenemente, de tão burro que é. Diz-se economista e não percebe uma das coisas mais básicas que há em economia: que é a produção que potencia o consumo e não o contrário. Sinceramente, como é possível que alguém acredite que os Estados precisam de ser altamente deficitários para o país ter uma economia saudável, quando a realidade é precisamente o contrário? Será que ele não percebe que as dívidas têm de ser pagas um dia? Ele que compre muitas obrigações do Tesouro americanas. Deve estar a pedir na rua dentro de uns anos...

Ao deparar-se com o plano de recuperação da zona Euro, nomeadamente com este ponto:
"9. All euro area Member States will adhere strictly to the agreed fiscal targets, improve competitiveness and address macro-economic imbalances. Deficits in all countries except those under a programme will be brought below 3% by 2013 at the latest."

Paul Krugman fez uma das afirmações mais absurdas que eu já tive oportunidade de ler (eu sei, eu só tenho 30 anos):
"OK, so we’re going to demand harsh austerity in the debt-crisis countries; and meanwhile, we’re also going to have austerity in the non-debt-crisis countries.

Plus, the ECB is raising rates.

So demand will be depressed in both crisis and non-crisis economies; this will lead to a vigorous recovery through … what?"

Golden shares

Sou contra a existência das golden shares, portanto é com agrado que vejo o seu fim.

Em relação a este post de Pacheco Pereira, devo dizer que concordo com a sua posição. Se as golden shares têm valor, o Estado não deve desfazer-se delas de borla.

Mas o que para mim é mais interessante - de tão óbvio - é o facto de, no caso da PT, o simples facto de acabarem as golden shares pressupor uma valorização da empresa. Para bom entendedor, meia palavra basta.

Thursday, July 14, 2011

Sobre a não tributação dos rendimentos de capital

Estou a ouvir o fórum TSF e há muita gente indignada porque os rendimentos de capital não vão pagar o imposto extraordinário.

Recordo que a maioria dos portugueses tem rendimentos de capital das suas poupanças, poupanças essas que já foram tributadas em sede de IRS anteriormente. Quando essas poupanças são aplicadas com sucesso (lucro) ainda há que pagar imposto sobre esses ganhos. O que me parece absurdo é que ainda houvesse que pagar IRS sobre esses rendimentos que já foram tributados anteriormente duas vezes!

Escalões do IRS sobem 3.5%

Pedro Passos Coelho anunciou, aquando da discussão do programa de governo na Assembleia da República, que iria haver uma tributação adicional em sede de IRS equivalente a metade do subsídio de Natal acima do salário mínimo. Mais tarde, o Primeiro Ministro explicou que todos os rendimentos declarados em sede de IRS seriam tributados com este imposto adicional. Entretanto, parece que os rendimentos de capital afinal não vão estar sujeitos a este imposto extraordinário porque há o medo de que esses mesmos capitais fujam para outros países para fugir ao imposto, algo que é perfeitamente legítimo, tendo em conta que a medida foi anunciada com efeitos retroactivos e naturalmente ninguém gosta de pagar impostos.

Passemos então às contas. Em Portugal os trabalhadores por conta de outrém com contrato recebem 14 meses por ano. Como nos foi dito que nos vão tirar metade do subsídio de Natal, vamos ter de descontar (adicionalmente) 1/2 x 1/14 do valor declarado em sede de IRS, ou seja, 1/28 ou 3.5% do total declarado acima do salário mínimo. Como quem recebe salário mínimo não desconta IRS, o que vai efectivamente acontecer é um agravamento (espero que extraordinário) de 3.5% em todos os escalões do IRS.

O Público confirma hoje as minhas suspeitas:
http://economia.publico.pt/Noticia/taxa-de-35--dara-o-dobro-da-receita-anunciada-com-imposto-extra_1502817

Wednesday, July 13, 2011

Bernanke confirma que QE3 está a caminho

Quando vi que o preço da prata estava a subir mais de 5% pouco depois da abertura da bolsa americana, pensei que Bernanke tinha voltado a falar. E voltou mesmo.

Como eu já tinha previsto, Bernanke anunciou que QE3 está a caminho. Segundo ele, a economia não está a recuperar da forma que ele tinha previsto por causa do aumento dos preços dos combustíveis e da alimentação. Essa parte ele percebeu. O que ele ainda não percebeu ou não quis perceber foi a causa desses aumentos, precisamente QE2. Se imprimir dinheiro criasse riqueza e estimulasse a economia, o Zimbabué seria o país mais rico do mundo.

"Bernanke maintained that temporary factors, such as high food and gas prices, have slowed the economy. He said those factors should ease in the second half of the year and growth should pick up. But if that forecast proves wrong, he said the Fed is prepared to do more."

Ou seja, Bernanke diz que se os preços da alimentação e dos combustíveis continuarem a aumentar, ele vai ter de imprimir mais dinheiro, isto é, se os preços aumentarem, ele vai garantir que aumentam ainda mais. E é com esta espiral inflacionista que Bernanke espera ajudar a economia americana. O problema é que, ao contrário do que ele espera, esta é a receita para a destruição do dólar e da economia americana.

Mas há mais! Se por um lado tem medo da deflação (como é possível haver deflacção se o preço de tudo continua a subir?), por outro lado também tem medo da inflação (esta sim real). Seja qual fôr o problema, a receita é sempre a mesma: imprimir dinheiro.

"The possibility remains that the recent economic weakness may prove more persistent than expected and that deflationary risks might reemerge, implying a need for additional policy support."

"Bernanke also said it was possible that inflationary pressures spurred by higher energy and food prices may end up being more persistent than the Fed anticipates."

A única coisa positiva que Bernanke disse foi que se calhar vai ter de antecipar a subida das taxas de juro: "He said that the central bank would be prepared to start raising interest rates faster than currently contemplated, if prices don't moderate." Contudo, mais cedo para ele provavelmente significa 2013. Sim, porque o aumento das taxas de juro só acontecerá depois das eleições presidenciais, ninguém duvide disso.

Apesar de os EUA e os americanos estarem extremamente endividados, Bernanke acha que a economia tem falta de crédito, sendo que foi precisamente o excesso de crédito fácil que levou à crise originalmente.

Bernanke said the Fed could launch another round of Treasury bond buying, the third such effort since 2009. It could cut the interest paid to banks on the reserves they hold as a way to encourage them to lend more."

Como é possível que alguém que nunca acertou uma previsão, que disse até ao fim que a crise do subprime não iria contagiar a restante economia, que tanto tem medo da inflação como da deflação e que para ambas tem a mesma receita (imprimir dinheiro), tenha o mínimo de credibilidade?

Da minha, queria agradecer ao senhor Bernanke, porque ele é a garantia que o ouro e a prata continuarão a subir enquanto o dólar continuará a descer. Só tenho pena que ele não fale publicamente mais vezes...

Aqui fica o artigo na CNBC: http://www.cnbc.com/id/43739458

O apoio às exportações

Quando olhamos para todas as economias fortes a nível mundial, verificamos que são países que têm uma balança comercial positiva, isto é, exportam mais do que importam. Os melhores exemplos desta realidade são a Alemanha e a China. Sendo assim, é fácil de perceber porque há em Portugal um consenso tão grande relativamente ao tema das exportações. Todos concordam que é preciso apoiar as empresas exportadoras, seja através de benefícios fiscais ou outros, porque Portugal exporta pouco para aquilo que importa e isso é um problema. Parece lógico, mas não é, como vou explicar a seguir.

O que os políticos e os economistas não percebem é que a Alemanha e a China não têm uma economia forte por terem uma balança comercial positiva; têm uma balança comercial positiva porque têm uma economia forte. E Portugal não tem uma economia fraca por ter uma balança comercial negativa; Portugal tem uma balança comercial negativa por ter uma economia fraca.
Ou seja, a balança comercial negativa é um sintoma da doença, que é a fraca economia. Os políticos, com a sua voluntariedade, não percebem este facto e empenham-se fortemente em aumentar as exportações, ou seja, a tratar o sintoma. A doença vai lá ficar. Apoiar empresas que exportam é um subsídio aos consumidores estrangeiros que vão comprar os produtos por nós exportados.

Como dizia Henry Hazlitt no seu Economics in One Lesson, um dos maiores e mais comuns erros em economia é analisar as medidas tomadas olhando apenas para os efeitos directos que as medidas têm num grupo particular, esquecendo as consequências indirectas em todos os outros grupos. Aplicando esta lógica ao caso em questão, obviamente que a baixa de impostos para as empresas exportadores vai atingir o seu objectivo de aumentar as exportações. Esse é o efeito directo no grupo particular que se quer ajudar.

Mas, o que acontecerá aos outros grupos, nomeadamente às empresas que não exportam?
As empresas não exportadores que tenham de concorrer no mercado nacional com empresas exportadoras vão ser prejudicadas, pois não têm esses benefícios fiscais. A algumas empresas até poderá compensar começar a exportar com prejuízo, desde que os benefícios fiscais compensem essse prejuízo. Ou seja, não só estaríamos a subsidiar os consumidores estrangeiros como as próprias empresas estariam a ter prejuízo nessas exportações. Outras empresas que simplesmente não tenham possibilidade de exportar serão indirectamente prejudicadas porque têm de pagar mais impostos que outras empresas. Se ainda assim essas empresas forem viáveis, quem paga mais pelos produtos que elas vendem somos nós, consumidores portugueses. Os mesmos consumidores que, enquanto contribuintes, subsidiam os consumidores estrangeiros, que podem comprar produtos produzidos em Portugal mais baratos.

Em conclusão, os políticos já perceberam que ao baixar a carga fiscal sobre as empresas exportadoras estas se tornam mais competitivas e podem exportar mais. Mas o que não percebem é que se não baixarem a carga fiscal para todas as empresas estão a criar um sistema injusto, que vai beneficiar essencialmente aquelas empresas que já são grandes, havendo também prejuízos para os portugueses enquanto contribuintes, consumidores e trabalhadores. Só atacando os verdadeiros problemas da nossa economia, como a morosidade do sistema judicial, a excessiva carga fiscal ou a rigidez das leis laborais, para mencionar alguns, poderemos incentivar a que apareçam mais empresas competitivas. Só quando isso acontecer poderemos beneficiar dos efeitos de uma economia forte, como a criação de emprego, aumento dos salários, aumento das exportações, redução das importações, etc. Estes efeitos virão de forma natural e sem qualquer influência dos políticos.